JANGADAS - Márcio Noal

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JANGADAS

Márcio Noal
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Localizada no árido sertão nordestino, Jangadas é uma cidade onde nada parece acontecer. Desde que os veios de magnetita secaram e, em consequência disso, secou o fluxo migratório de ambiciosos forasteiros, a cidade mergulhara numa espécie de torpor, só quebrado pelas fofocas e as maledicências de seus habitantes.
Tudo começa a mudar quando um dia o poeta Sallim é preso acusado do assassinato do açougueiro Ataídes, um negro judeu descendente de alemão (uma das muitas bizarrices do enredo). O inquérito é conduzido pelo poderoso Floriano Costa e Aguiar, que, além de delegado, acumula os cargos de prefeito, vice-prefeito, delegado, presidente da Câmara dos vereadores e mesário eleitoral... Para auxiliá-lo na investigação, é trazido de Codó, onde fazia um estudo sobre a macumba, o famoso detetive belga Gaspard Riquet, que havia trabalhado com Hercule Poirot...

O romance traz ainda um variado desfile de personagens difíceis de esquecer. Entre eles há o padre Clodoaldo, que, além de ouvir Bob Marley, aprecia fumar maconha; a cultíssima prostituta Claire, que, em cada conversa, deixa cair de seus lábios citações de Garcia Márquez, Lacan e Rimbaud; a professora Harolda, que, junto com seus amigos Carlos Magno, Avelino e Beroalda, luta contra o poder despótico dos Costa e Aguiar ao mesmo tempo que sonha com a vitória do comunismo; o hilariante soldado Feijão, braço-direito de Floriano, encarregado dos serviços da prefeitura e da delegacia, onde mora...
Romance de estreia do multitalentoso Márcio Noal, que, além de escritor, é músico, compositor, roteirista e produtor, Jangadas não é um romance policial típico. Se nos livros de Agatha Christie, Conan Doyle e outros luminares do gênero reina uma atmosfera lúgubre, pesada, em Jangadas a narrativa é leve e pontuada por altas doses de humor e nonsense. Tente não rir dos duelos verbais entre Feijão e Floriano. Além disso, paralelo à trama policial, avulta aqui uma crítica social vigorosa do sistema oligárquico que há séculos domina as regiões mais atrasadas do Brasil, obstando o seu desenvolvimento e o ingresso na modernidade. Jangadas é sobretudo isto: o retrato do Brasil que se recusa a aceitar o futuro.
Atitude oposta felizmente tem o autor, cuja modernidade se pode ver a cada instante. Amante de Faulkner, Joyce e Proust, Noal não apenas se utiliza das inovações técnicas e estilísticas trazidas por esses autores, como o fluxo da consciência, mas também introduz as suas próprias contribuições ao fazer literário. Isso é sobretudo perceptível nos diálogos, nos quais a eliminação da interferência do narrador os aproxima da técnica dramatúrgica. Neles não há qualquer indicação do falante ou do seu esta-do emocional, o que contudo, dada a habilidade do autor de particularizar a fala dos personagens, não cria para o leitor a menor dificuldade. Bastaria uma única frase de cada um deles para sabermos quem está falando.
Rodrigo César Dias
 
 
RESENHA
 
Pela descrição feita por Rodrigo César Dias, é possível ter um vislumbre do romance de Márcio Noal.
Quando li o título, “Jangadas”, pensei nas embarcações utilizadas pelos pescadores da região Nordeste. Pensei na solidão contida nessa palavra e no travessia feita pelos pescadores, de um ponto a outro do litoral. Porém, conforme lia a história, colocava mais um tripulante na embarcação: Doc, Sallim, Floriano, Harolda, Carlos Magno, Crisleidácia, presos a uma história mal resolvida no passado. A eles se unem: Feijão, Claire, Beroalda, Avelino e tantos outros que participam e fornecem outras nuances à história.
Fiz tantas anotações sobre o livro que quase me senti incapaz de começar a escrever meu parecer sobre a obra, porque são muitos elementos significativos em cada capítulo.
Temos uma história com uma linguagem apropriada, boa de ler, fácil de entender. O texto flui, mesmo nos fluxos de consciência que, aliás, são muito bem aproveitados pelo escritor.
Os pontos de vista são ágeis e mudam no mesmo capítulo, mas não confundem o leitor.
Não vou repetir sobre as referências a outros autores, porque o Rodrigo César Dias já o fez na apresentação que se encontra na Amazon.
O que vou dizer é que se existe essa distinção entre as diferentes Literaturas, Márcio Noal, com certeza, se enquadra no grupo dos grandes escritores, pela maneira como conduz a trama e envolve cada personagem em um crescente. Ninguém está lá à toa. Por conta dos crimes, vamos tentando encaixar as peças do quebra-cabeça, sem sequer imaginar as surpresas que Noal nos reserva.
As muitas situações amorosas mal resolvidas entre as personagens se apresentam conforme a leitura avança, o que fez com que me questionasse, o tempo todo, sobre as intenções de cada um.
Quando acontece o homicídio, Floriano vê sua possibilidade de vingança contra Sallim. O vai e vem dos fatos revela um pouco mais da personalidade dos envolvidos, desnudando seus passados e, aparentemente, traçando seus futuros.
Existe um ponto relativo ao crime que coloca uma dúvida sobre a solução de um dos homicídios, mas é tão sutil que, se o leitor não prestar atenção, passa sem ser percebido e só vamos fazer a ligação, ao final.
Há uma secura no povo de Jangadas, com relação aos sentimentos que nutrem uns pelos outros, quase tão grande quanto a aridez do sertão.
A originalidade com que Noal trata o tema do amor, do crime, das visões de mundo, nos faz seguir adiante. Acabamos nos identificando com as personagens e, sem dúvida, fica difícil não escolher um para ser o vencedor nessa batalha insana entre o passado que os assombra, o presente que os destrói e o futuro que almejam.
Noal vai revelando as modificações internas de cada um, de acordo com as situações que se apresentam na história. Os durões mais dispostos a reverem seus posicionamentos, os mais sensíveis tornando-se mais cruéis e também há os que nunca se modificam, até porque, a humanidade é assim, com possibilidades infinitas.
Ao chegar no último capítulo…
Deixo que cada um leia e surpreenda-se, assim como eu me surpreendi.
 
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