SOBRE ANTOLOGIAS

13:48

Os escritores iniciantes possuem o desejo desenfreado de serem publicados, o que é fato e não poderia ser diferente. Isto também aconteceu comigo e não mudará só porque eu estou falando a respeito.
A pressa de ver um texto ser publicado é o que leva muitos escritores, assim como eu, a pagarem por publicações. Começamos com antologias e depois partimos para o livro solo, aquele tão sonhado, que nos levará à fama.
E é por causa da pressa que cometemos grandes equívocos.
Alguns meses antes de ter meu livro publicado, escrevi um conto. Ele estava parado em um arquivo, esperando finalização. Decidi, que era chagada a hora de colocar um ponto final na história e publicá-lo, mas em qual antologia? Será que haveria uma apropriada ao tema? Então comecei as buscas e, por já haver publicado outros contos, acabei buscando uma editora conhecida.
Enviei o material, recebi a confirmação da publicação, as formas de pagamento pelos dez exemplares que deveria adquirir e as regrinhas obrigatórias a serem seguidas por ter aceitado os termos do contrato.
Confesso que me senti uma colegial. Uma adolescente que acabou de entrar no ensino médio e que precisa de orientações de como agir diante das novidades que se apresentam. Ao ler as regrinhas, ri sozinha. Sou iniciante, sim, mas nem tanto. Sei que é preciso divulgação para vender o que produzo, mas aí a ter que ser conduzida pela mão, achei um tanto sem sentido.
Passou-se algum tempo e eis que olho a quantidade de contos inscritos e aprovados: 94. Sim, noventa e quatro. Um livro de 432. Exatamente isso. Quatrocentas e trinta e duas páginas.
Fiquei pensando: quantos leitores terão vontade de ler um livro com 94 contos, com 432 páginas? George R. Martin ficaria surpreso com tantos textos reunidos em um único volume! Houve algum tipo de seleção? Ok. A antologia não tinha um tema específico, o que me agradou, porém como fica a qualidade dos textos? Serão realmente bons? Não, nem de longe meu conto é o melhor da antologia. O objetivo não é enaltecer as qualidades do meu conto, mas a valorização de cada um, como deveria ser. Por que não abrir dois livros, com tema livre?
Cada um destes 94 contos é apenas mais um, em um mar de outros tantos. E aí entra a valorização do escritor. O desejo da publicação passa por cima de qualquer pensamento racional. Do amor próprio.
Não me sinto confortável em escrever este texto, porque não gosto de criar divergências, porém é meu direito, como escritora de dizer o que penso sobre assuntos que me incomodam. E este, em específico, me incomoda.
Aliás, um dos motivos que me fizeram parar de publicar meus contos em antologia é o "pagar para”. Sim. Participei, porque quis. Poderia ter colocado gratuito na Amazon, no Wattpad ou no meu blog. Quis, no entanto fazer algo pelo meu conto, porque achei que ele merecia estar em uma antologia.
Como diz um amigo meu: se você precisar pagar para publicar, não é bom.
Terei, dentro de alguns dias, 10 exemplares desta antologia. Terei que colocá-los à venda, quer eu goste ou não do que aconteceu. Uma certeza ficou: publicar outro conto meu, só no meu blog ou em outra plataforma digita.




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5 comentários

  1. Depois da primeira vez, sempre fico com um pé atrás. Não tenho participado de antologias pagas por isso. Acho que 94 contos dentro de uma antologia dá para ter noção da complexidade da coisa. Eu optei pela publicação independente, visto que é difícil encontrar respaldo nas editoras. Muitos autores bons - e eu não estou me incluindo nessa colocação - deixam de ser publicados todos os anos por um conjunto de fatores que, se fizéssemos relação, não teríamos como terminar de forma positiva. E, entre os autores, existe segregação. Autores que possuem editora e que não pagaram pela edição, se colocam em um nível muito superior. Autores que pagaram parte da publicação, também. E no conjunto das coisas, autores independentes não têm a mesma consideração. Podem escrever super bem, mas a auto publicação não dá respaldo entre nesse universo da escrita. Existe muita arrogância.
    Eu estive pensando em participar de antologias. Contudo, mesmo aquelas que não exigem pagamento de exemplares são duvidosas. Tomo como exemplo a Editora Buriti, que, mesmo não cobrando, também não deu retorno aos participantes das antologias pelas quais ela se promove. Sem contar que, deixou muita gente sem resposta quando fechou as portas e abriu novamente com outro cnpj.
    O mercado editorial brasileiro é muito voraz. A situação econômica não é boa; as editoras têm dado valor para os escritores de fora; e ainda não há uma consciência na questão de valorização do autor nacional.
    Eu, por seu intermédio - porque você indicou excelentes escritores para mim e eu peguei o gosto pela literatura nacional - leio muito mais autores nacionais do que antes. Mas os escritores também não valorizam os próprios colegas. Tome por exemplo os círculos aos quais você frequenta, faz parte, conhece. Quantos escritores conhecidos seus e que dialogam com você, compraram o seu livro, comentaram o seu livro?
    São muitas questões que vem de encontro a essa vontade de publicar que você falou, a esse querer ser publicado quase impossível de conter. Todos querem ser lidos E publicados. Então, Ceres, acho que as questões que passam pelas antologias pagas têm a ver com essa configuração de coisas - escritores, independência, editoras, plataformas... Esse é um pedacinho da grande problemática da Literatura no Brasil.
    Não sei se me expressei bem. Mas é isso que me vem à mente nessas questões.
    Abraços!
    Eve.

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    1. Não é fácil e é complexo, porque envolve desejos e sentimentos de quem que ser publicado e lido.
      Só acho que existem algumas antologias que não respeitam o escritor, justamente por só pensarem na arrecadação e não no escritor.

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  2. Fui privilegiado em receber convite de uma editora para lançar meu primeiro livro. Já havia recebido contato de duas editoras com propostas desse tipo: pagar para ser publicado. Escrevia em um blog, divulgava no Orkut, criei uma base de leitores bem legal (na época, ter mais de 4 mil membros em uma comunidade dedicada ao seu livro era sucesso), e estava contente assim. Nem mesmo esperava lançar Terra Morta - Fuga profissionalmente. O que me ajudou a não cair nas mãos de editoras sacanas foi o fato de eu ser extremamente pão-duro. Se fosse pela ansiedade, teria dado um rim em troca da publicação. Já me interessei por chamadas para coletâneas de temas que me agradaram, mas brochei quando soube que precisaria pagar. Já me virei do avesso para entregar contos num deadline curtíssimo, somente para ser rejeitado para que amigos do organizador pudessem entrar (tive provas disso na época). São diversas "pequenas" coisas que vão desanimando.

    94 contos dentro de uma antologia? Se essa informação tivesse sido divulgada antes de o autor se comprometer, eu nunca me sujeitaria a entrar. Acredito que você também não. Parece Carnaval. Aglomeração sem pré-requisitos. Sinceramente, uma falta de respeito para com o escritor. E não vou dizer "Não estou desmerecendo os outros contos". Isso deixa o profissional com a dúvida: "Esse é o livro certo para o meu texto? Ou apenas paguei a pessoa errada?" O feedback do editor pode não ser preciso em alguns casos, mas é o primeiro que recebemos, e pode nos guiar por caminhos mais corretos, nos ajudar a enxergarmos o ponto ao qual queremos chegar.

    Fica na cara a "puta falta de sacanagem" por parte dessa editora. Falta de transparência. O que fica bastante claro é o amor à leitura... aos números que vão ler na conta bancária.

    Sinto muito por você ter passado por essa experiência, Ceres. De verdade. Você parece ser uma pessoa legal, inteligente e talentosa demais para se frustrar com algo tão idiota. Espero que você tome as decisões mais acertadas para si mesma nas próximas. Esse erro já passou. Que fique lá atrás, com os outros 93.

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    1. Sem duvida, Tiago Toy. Ficará para trás. Escrevi para desabafar e para alertar. Se eu soubesse que seriam 94, não teria perdido, nem tempo em me inscrever, nem dinheiro.

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    2. Essas palavras me representam:
      "somente para ser rejeitado para que amigos do organizador pudessem entrar (tive provas disso na época). São diversas "pequenas" coisas que vão desanimando."

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