A GATA, O RATO E EU - CRÔNICA

17:18

Crônica de fim de semana.

 Não é novidade que gatos trazem para os donos alguns presentes inusitados. Não poderia ser diferente comigo. Quando cheguei em casa, após o almoço, encontrei Amora segurando algo diferente entre as patas mescladas de cinza escuro e laranja. Ela, com sua calma costumeira, fitou-me com seus olhos verdes leitores de almas e miou delicada. Afastou-se em seguida, para que eu agradecesse a pequena lembrança. O pequeno camundongo acabou despertando em mim uma recordação há muito esquecida.
Na casa de minha avó, os gatos andavam livres pelo pátio dos fundos. Não havia grandes preocupações nem para com eles – tampouco comigo. Sempre tinha algum acontecimento mais interessante na vida de outra pessoa que levava todos a me deixarem meio livre para construir sonhos mais ousados do que uma nota dez nos cadernos da escola (nota odiada por mim durante anos, porque me mantinha longe dos elogios que eu acreditava merecer, e que meus esforços não alcançavam).
Entendi, então, que eu precisava ser diferente. E os gatos sonolentos despertaram algo em mim. Por isso, após o almoço juntei-me a eles. E, como em toda casa de madeira sem pintura, de uma das frestas o pequeno camundongo colocou o focinho para fora e cheirou, à procura, talvez, de uma rota segura. Mas a gata, no poço, o deteve.
- Hoje você vai comer um rato – sussurrei.
A gata mal mexeu os bigodes e continuou seu sono imperturbável.
Providenciei o material: um pedaço de queijo, roubado da geladeira, enquanto as mulheres conversavam na sala; alguns gravetos esquecidos atrás do forno de barro, uma pequena pá, para fazer o maior buraco que eu conseguisse.
Escolhi um trecho de terra, próximo à casa e à fresta, onde a vítima se escondia. Cavei o solo. Organizei os gravetos sobre o buraco de forma que cedessem quando o pequeno ser pisasse sobre eles. Posicionei o queijo e me afastei.
A fome da criatura se comparava a minha, quando desejava ganhar um reconhecimento que nunca chegou. Não demorou, portanto, para que farejasse o queijo e se aventurasse sobre os gravetos que, por conta de seu peso, caíram e o levaram para dentro do buraco.
Vibrei com a execução perfeita de meu plano. Aproximei-me da armadilha e olhei o pequeno que tentava escalar, mas fui mais rápida e o pequei pelo rabo. Erguendo-o, permaneci por algum tempo a observá-lo se debater. Soltá-lo me pareceu incoerente, após o trabalho em preparar tudo de forma tão meticulosa. Mostrá-lo para minha mãe e tias só me traria problemas. Elas não entenderiam a minha necessidade em executar tal tarefa. Eu conhecia as normas do certo e errado e sabia, por outras experiências, que viriam sermões sobre higiene e perigo, e o castigo mais detestável e imposto a mim seria estudar a maldita tabuada. Os elogios não aconteceriam, como sempre.
Olhei para a gata sobre o poço. Levei o camundongo até ela que, ao farejar o roedor, ergueu-se e tentou saltar para arrancá-lo de minha mão. Fiquei jogando aquele jogo de “dou-não-dou” até perder a graça. Uma crueldade que não se diferenciava daquela que faziam comigo, quando não ganhava o que tanto necessitava. Então, entreguei o prêmio de meu domingo à gata, que fugiu em seguida. Sem qualquer agradecimento, elogio ou olhar de aprovação.

Publicações que possam lhe interessar

0 comentários