O INTRUSO - PETER BLAUNER

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SINOPSE

Em 'O Intruso', Peter Blauner vai psicologicamente fundo na vida dos
deserdados, dos sem-teto, dos que vivem à margem de uma grande sociedade
capitalista que ensina a triste arte de animalizar seres humanos. Um
livro político e policial, poético e violento, denunciador e verdadeiro,
emocional e crítico.

SINOPSE
Em 'O Intruso', Peter Blauner vai psicologicamente fundo na vida dos deserdados, dos sem-teto, dos que vivem à margem de uma grande sociedade capitalista que ensina a triste arte de animalizar seres humanos. Um livro político e policial, poético e violento, denunciador e verdadeiro, emocional e crítico.

OPINIÃO
Cruzo a linha que separa 2015 de 2016 com um livro recomendado por Stephen King, em “Sobre a Escrita”.
Não encontrei resenhas negativas à obra, nem com relação ao enredo, personagens, trama ou qualquer elemento de construção do texto, o que só me deixou ainda mais curiosa.
Para mim, o início da leitura se tornou um pouco difícil, pela narrativa no presente. É um tanto raro encontrar autores que se arriscam nesse tempo verbal.
A complexidade na construção das personagens se faz presente o tempo todo. Para cada personagem que o autor Peter Blauner escolhe, há uma backstory que pode ser encontrada na vida real, no vizinho do andar de cima, no colega de trabalho, no padre da paróquia, no amigo que se afastou há anos.  A profundidade que existe neles os faz palpáveis.
John G. é mais humano do que se possa imaginar. Ele cai aos poucos, como uma pena penetrando na escuridão do poço levada pelo vento que são as dificuldades da vida. Ela vai batendo nas paredes que erguem o poço e acaba por ser lançada na lodo fétido que se acumulou após anos sem limpeza. É assim que John G. termina ao final do capítulo 6. E é aí que a identificação com ele acontece. O leitor tem nas mãos alguns sentimentos como compaixão e raiva, perguntas que ficam nas entrelinhas dos pensamentos dele e a vontade de interferir e de descobrir como John G. vai sobreviver.
Ao poucos, porém, a empatia por John G. começa a esmorecer. Talvez pela fraqueza que demonstre em não conseguir sair da zona perigosa na qual se deixou colocar pelo uso do crack.
Se o leitor tiver repulsa pelo uso de drogas, cairá na vontade de bater em John G. e fazer com que retome a sanidade na marra, antes que cometa uma grande besteira sem volta e cheia de arrependimentos, que o levarão ainda mais para o fundo do abismo. Há a possibilidade da identificação com o problema, a piedade pode emergir, a compaixão e o desejo de vê-lo superar todos os problemas que o atormentam. A empatia pode fazer com que desejemos estender-lhe a mão, ou a repulsa nos afastará dele e viraremos a cara, como normalmente fazemos diante do que não nos agrada.
A face da realidade que não queremos ver está presente no livro de Blauner. Um tapa em nossa consciência e em nossa falta de atitude frente a problemas quotidianos.
Como diz Ernesto Wolff na contracapa: “O livro de Blauner só não é daqueles que lemos de um fôlego porque a autenticidade de seus personagens nos obriga a parar para refletir.” E respirar diante da densidade de sentimentos que ele cria no leitor é imprescindível.
A ausência do que fazer ou como agir com o “homeless" John G. transforma a vida de Jake. Outro personagem que nos faz transpirar.
Há a necessidade de proteção à família que se instala em Jake, pela vida que teve antes de se tornar um advogado de sucesso. Essa atitude pode desencadear uma mudança radical de comportamento, uma volta às origens do bairro pobre onde nasceu e do qual sempre quis manter distância. E, então, tudo sai do controle e se perde em um túnel escuro e, aparentemente, sem salvação. Aqui começa a queda de Jake.
Nesse ponto, a raiva e a tentativa de entender John G. crescem no leitor. Talvez outros sintam compaixão.
Entendemos, há partir do capítulo 27 que nenhum personagem surge por acaso.
E Blauner nos coloca diante da brutalidade do ser humano, capaz de atrocidades mil para atingir seus objetivos.
Quantos de nós acreditamos na justiça? Em algum momento ela se faz presente e nos protege do que acreditamos serem atos criminosos? O que é justo para nós, realmente é justo? Blauner faz nossas crenças desmoronarem. É preciso repensar conceitos para seguir adiante na leitura.
Próximos ao final, tudo pode mudar. Os sentimentos conflitantes crescem e a impotência em não poder intervir cria ainda mais tensão. A adrenalina faz com que a leitura corra para chegarmos ao capítulo derradeiro. Começa, então, a torcida para que os vilões paguem por seus pecados, o que pode não acontecer, afinal, o narrador não se mostra disposto a ser justo como gostaríamos que fosse, segundo nossos princípios de certo e errado.
Sem dúvida, comecei meu ano com uma ótima leitura.

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