UMA DOSE DE DESAMOR - CONTO

14:44



Nina abriu os olhos. As coisas estavam fora de foco. O teto branco dançava uma dança sem ritmo. O cheiro forte de produtos de limpeza acentuou a sensação de mal-estar e o estômago revirou. O plástico do colchão fez um barulho seco quando sentou, e a cama rangeu. Do litro de soro ao lado saía uma pequena mangueira que terminava em seu braço. Puxou tudo de uma vez. A ardência a queimou por dentro, provocando-lhe uma careta de dor.

– Merda! – O palavrão escapou da boca seca sem qualquer pudor.

Deixou o corpo cair de lado sobre a cama e então se percebeu sozinha. Apenas ela e o zunido do ar-condicionado. Nina esperou a tontura dar uma trégua. Levantou, apoiou-se na parede e seguiu até a porta dupla. Empurrou-a com cuidado, mas a fraqueza das pernas a fez perder o equilíbrio e tombar no chão do corredor vazio.

Escutou sons vindos de algum lugar próximo. Poderiam ser as vozes que a perseguiam? As mãos suaram, marcando o piso frio quando se apoiou para ficar de pé. Um tremor sacudiu-lhe o corpo. Se elas a alcançassem não conseguiria sair. Tampou os ouvidos. Não queria escutar. Esgueirou-se até encontrar a saída. A rua quente e pouco movimentada abriu-se como um convite à liberdade.

A noite havia começado. Seguiu em frente até a avenida principal. Não voltaria ao hospital, onde eles a trancariam, amarrando-a à cama. Também considerou as agulhas. Sempre colocavam agulhas em seus braços e a faziam dormir. Nina não queria dormir e não queria mais ouvir as vozes.

Cambaleou por mais algum tempo até encontrar a praça.

– E aí. Tá na boa?

Nina deu um pulo, perdeu o equilíbrio e caiu sentada no chão duro. Encarou o garoto que a olhava como se a conhecesse.

– Sai fora!

– Ah, qual é? Ontem mesmo comprou bolinha comigo e agora tá se fazendo?

– E daí?

– Cê ficou doidona.

Nina ficou de quatro para conseguir se levantar. Apalpou os bolsos da calça, pegou o dinheiro amassado e recebeu de volta dois comprimidos. Colocou-os na boca sem nem se preocupar com a sede que queimava a garganta. O garoto se afastou e sumiu de vista.

Em poucos minutos, o mundo tomaria outra forma. Nina sentou em um dos bancos de madeira e esperou. Os olhos reviraram, o corpo amoleceu. Esqueceu do pai que só se importava com ele mesmo, com o jogo de futebol e o jornal, e da mãe que passava as tardes tomando chimarrão na casa da vizinha e cujo único conselho que lhe dava era para não engravidar.

Riu sozinha por algum tempo da porcaria de vida que tinha. Lembrou do primeiro fininho que puxou junto com o namorado. O filho da puta tinha garantido que as vozes desapareceriam. Nina cedeu; afinal, os pais viviam ameaçando interná-la em uma clínica para loucos. Depois daquele, não parou mais. E veio a bebida.

Os amigos se afastaram quando a polícia chegou e a levou para casa, bêbada e drogada. Depois, foram os dias na clínica. A psicóloga dizia que as vozes que Nina escutava eram alucinações decorrentes da droga; não acreditou quando ela contou que as escutava antes de embarcar nessa vida. A idiota pensava que sabia alguma coisa da vida. Nina gargalhou ao se lembrar da fuga. Conseguiu pular a cerca porque os amigos armaram uma confusão no refeitório e ela saiu sem que a vissem. Assim que ganhou a rua, enganou o casal que passava, dizendo que fora roubada. Eles a ajudaram a chegar em casa. Não chorava, porque não se sentia triste, apenas vazia.

Deu uma olhada rápida pela praça e conteve o riso. Não queria que as vozes a encontrassem de novo. Elas que ficassem no hospital. Sempre que estava feliz, elas voltavam. Ergueu-se de um pulo e correu em direção ao bar. Dessa vez as enganaria. Nunca a descobririam ali. Entrou, parou em frente ao balcão e bateu na bancada.

– Oh! Dá uma cerveja!

Um homem se aproximou.

– Tem dinheiro pra pagar?

Nina atirou as últimas notas que tinha no bolso em direção ao peito dele. Ele as recolheu, contou e colocou a garrafa aberta na frente dela com um aviso:

– Some daqui.

As palavras fizeram Nina lembrar do pai. Sempre distante e sem tempo para conversar. Nem mesmo um beijo de boa-noite. Mostrou o dedo do meio para ele sem se importar com os murmúrios de indignação das pessoas ao redor.

Nina escolheu uma mesa, sentou e começou a tomar a cerveja. Viu quando ele pegou o telefone e avisou que chamaria a polícia, mas ela não se importou. Era domingo e a delegacia estava fechada. Sem delegado, sem plantão, sem cela. Cidade pequena não efetua prisão aos domingos.

O primeiro gole aliviou o calor. No terceiro, as conversas das pessoas começaram a deixá-la irritada. Queria tomar a cerveja sem barulho, sem toda aquela gente ao redor falando sobre suas vidas estúpidas. Mais um gole. Apertou as têmporas com as mãos. As vozes chegaram. Elas a encontraram. O medo gelou a espinha e arrepiou a pele.

“Vamos pegar você!”

Nina tremeu. O estômago reclamou, a cerveja subiu pela garganta sujando o chão. Esfregou as mãos nas calças jeans suja e rasgada. Levantou e derrubou a cadeira. O burburinho dos frequentadores do bar parou. O homem saiu de trás do balcão, agarrou-a pelo braço e a empurrou para fora. Ela protestou, desferindo socos e pontapés. Ele continuou a arrastá-la em direção à saída.

– Eu disse pra você sair do meu bar.

O corpo de Nina encontrou a calçada dura. O coração martelava na cabeça.

“Nina!”

“Nina!

“Encontramos você!”

“Nina!”

Eram muitas. Nina tinha que fugir. Levantou e correu pela rua até perder o fôlego. Tropeçou e caiu tantas vezes que nem percebeu que direção tomou. Embrenhou-se no meio do mato. Havia saído da cidade. O medo parecia uma criatura viva envolvendo-lhe as pernas, os braços e a cabeça. Preferiu ficar em silêncio. Isso poderia mantê-la a salvo. Encolhida perto de uma árvore, o barulho de água chegou até ela. Rastejou, tentando não fazer muito barulho. Tinha sede.

“Nina!”

Ignorou o chamado, mergulhando as mãos na água fria. Molhou o rosto e tomou alguns goles. Entrou no rio sem se importar com a roupa ou o calçado. Talvez as vozes fossem embora, levadas pela correnteza, que se apresentava fraca pela falta de chuva.

“Estamos esperando!”

“Nina!”

A lua deixava à vista algumas pedras próximas à queda d’água. Nina deu algumas braçadas onde o rio tinha mais profundidade. Engastou, tossiu, buscou pelo fundo, apoiou os pés como pôde e, após escorregar algumas vezes, chegou ao pequeno platô. Exausta, andou até a beirada olhando para baixo, mas a luz da lua não mostrava o que havia abaixo da pequena cachoeira. Só um poço imenso e a escuridão.

Nina olhou para o céu. As estrelas brilhavam e ela sorriu. Um vento suave bateu em seu rosto e o vazio desapareceu. O som das vozes ainda ecoava em sua cabeça:

“Nina!”

“Venha!”

“Pule!”

– Vão para o inferno!

O grito de Nina, numa vingança definitiva, pela primeira vez sobrepôs-se às vozes enquanto mergulhava com ela, em meio ao silêncio da noite.





Ceres Marcon
22/02/2015

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